Especialista em endoscopia intervencionista e oncológica, Victor Galvão participa do ENEO 2026, no INCA, e defende fortalecimento da atenção básica para ampliar a detecção precoce dos cânceres do aparelho digestivo
O médico feirense Victor Galvão, endoscopista e especialista em endoscopia intervencionista e oncológica, participa, no Rio de Janeiro, da 14ª edição do Encontro Internacional de Endoscopia Oncológica (ENEO 2026), um dos eventos dedicados à discussão do diagnóstico e da terapêutica endoscópica em oncologia gastrointestinal. Realizado no HCI do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o encontro começou nesta quarta-feira (23) e segue até esta sexta-feira (25), reunindo especialistas brasileiros e internacionais.
A participação acontece em meio ao Setembro Rubi, campanha de conscientização sobre o câncer gástrico, e reforça uma discussão que tem ganhado espaço na saúde pública: a importância do rastreamento e do diagnóstico das lesões em fases cada vez mais precoces.

No ENEO, Victor Galvão participa em duas frentes. Uma delas é como palestrante, com o tema “Unidades Básicas de Saúde no rastreamento populacional: onde tudo começa”. A segunda é como debatedor dos casos ao vivo de endoscopia oncológica.
Para o médico, estar entre especialistas de diferentes países também representa uma oportunidade de mostrar a experiência desenvolvida na Bahia, inclusive fora dos grandes centros.
“Vejo esse convite como uma grande honra e uma oportunidade de mostrar que o que fazemos na Bahia tem muito valor. A Bahia, e especialmente o interior, não apenas recebe ciência, mas também pode produzir conhecimento que seja compartilhado e aplicado em outros lugares”, afirma Victor Galvão.
A programação internacional permite ainda a troca de experiências com especialistas de países que possuem programas consolidados de rastreamento e tradição no desenvolvimento de técnicas de endoscopia oncológica. Segundo Galvão, a experiência japonesa é uma das referências nessa área.
“O Japão tem um sistema de rastreamento organizado e uma grande experiência em endoscopia oncológica. Esse intercâmbio permite conhecer programas já estruturados e discutir como essas experiências podem contribuir para o momento que vivemos no Brasil”, explica.
UBS pode ser porta de entrada para o diagnóstico precoce
Um dos principais pontos defendidos pelo especialista é o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde como parte da estratégia para identificar pessoas que precisam ser investigadas e encaminhá-las no momento adequado. O próprio Ministério da Saúde define a atenção primária como estratégica para promoção da saúde, prevenção de doenças e organização do cuidado.
A experiência de Victor Galvão em ações de rastreamento do câncer colorretal ajudou a definir o tema apresentado no ENEO. Segundo ele, trabalhos realizados diretamente com a população evidenciaram a importância das UBS e, especialmente, dos agentes comunitários de saúde.
“Nas ações de rastreamento das quais participei, conseguimos perceber o valor muito grande da Unidade Básica de Saúde e dos agentes comunitários. É na atenção básica que conseguimos chegar à população, identificar quem precisa ser investigado e organizar o encaminhamento para os exames”, destaca.
Tecnologia permite identificar e tratar lesões precocemente
Outro avanço discutido no encontro é a evolução da endoscopia. Equipamentos com tecnologias de imagem avançada auxiliam especialistas treinados na caracterização de alterações da mucosa e na identificação de lesões suspeitas.
Galvão destaca ainda técnicas como a dissecção endoscópica da submucosa (ESD), desenvolvida e amplamente aperfeiçoada no Japão, que permite, em pacientes criteriosamente selecionados, retirar determinadas lesões precoces por endoscopia, preservando o órgão e evitando cirurgias convencionais de maior porte.
“Hoje temos tecnologias capazes de mostrar padrões que ajudam a diferenciar uma alteração benigna de uma lesão suspeita. Em determinados casos de câncer precoce, técnicas endoscópicas permitem retirar a lesão preservando o órgão. Por isso, quanto mais cedo identificamos essas alterações, maiores são as possibilidades terapêuticas”, explica.
Atenção aos sinais, mas prevenção deve começar antes dos sintomas
O médico alerta que alguns sinais devem levar à procura por avaliação profissional, entre eles perda de peso sem explicação, anemia sem causa esclarecida, mudança persistente no hábito intestinal, sangue nas fezes, fezes muito escurecidas, vômitos com sangue e dificuldade para engolir.
Mas Victor Galvão ressalta que esperar pelo aparecimento de sintomas não deve ser a estratégia de prevenção.
“O ideal é procurar orientação médica e realizar os exames no momento oportuno, mesmo estando bem. Cada exame tem sua indicação. Quando conseguimos encontrar uma alteração pré-câncer ou uma lesão muito inicial, muitas vezes é possível tratá-la durante o próprio procedimento e impedir que ela evolua para uma doença que exigirá tratamentos mais complexos”, reforça.
Para o especialista, a participação no ENEO também amplia a discussão sobre como aproximar os avanços científicos da população atendida pelo Sistema Único de Saúde.
“O rastreamento é onde a detecção precoce começa e onde podemos mudar o rumo de muitos diagnósticos. Levar essa discussão para um encontro internacional e, ao mesmo tempo, trazer essas experiências para a nossa realidade é contribuir para que o diagnóstico precoce possa chegar a mais pessoas”, conclui Victor Galvão.
O ENEO 2026 está em sua 14ª edição e reúne profissionais experientes, especialistas em formação e convidados nacionais e internacionais para atualização e intercâmbio científico em diagnóstico e tratamento endoscópico do câncer gastrointestinal.
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Cristiane Melo
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