A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade
No início, a ideia primordial era evangelizar, mas a receptividade da comunidade e o destemor dos frades italianos na sua missão funcionaram com tonicidade, levando-os a um projeto maior e sempre crescente, que gerou até mesmo a formação de um bairro cujo topônimo é um justo reconhecimento a esse trabalho. Os Capuchinhos “naturalizaram-se” e a Cidade Princesa os “adotou” há quase 80 anos.
Desde 1950, eles estão, oficialmente, em Feira de Santana, embora tenham vindo um ano antes para as pesquisas indispensáveis visando à instalação física. Oriunda do Velho Continente, geograficamente da Itália, a ordem religiosa dos Frades Capuchinhos das Marcas, com vigor e inquestionável determinação, não apenas implantou e expandiu um fundamental projeto de evangelismo como, indo muito além, inseriu-se afetivamente na comunidade, dela tornando-se partícipe, com valiosa contribuição social perfeitamente identificada na educação e na comunicação.
Lembra Frei José João Monteiro Sobrinho, o estimado Frei Monteiro, que essa bela história, já caminhando para oito décadas, começou em meados de 1949, quando desembarcaram em Feira de Santana frei Henrique de Ascoli, frei Teodoro de Serravalle e frei Germano de Colli, identificados pelas naturalidades de suas regiões no território italiano. A missão inicial era localizar uma boa área física onde o projeto da Ordem pudesse ser implantado. O primeiro momento teve a atenção voltada para uma gleba no atual bairro da Queimadinha, não concordando, no entanto, frei Teodoro.
Observando a aceleração do crescimento urbano e o projeto de construção da BR-324 (Feira/Salvador), ele opinou pela busca de uma área que se encaixasse nessa nova dinâmica adotada pela cidade, por conta da rodovia intermunicipal. Na época, quem utilizava a estrada para ingressar na cidade, vindo de Salvador e outras comunidades de igual sentido, percebia facilmente uma tabuleta azul, às vezes açoitada pelo vento, e nela escrito, identificando a área: “Fazenda Deus Dará”. E foi ali, exatamente, talvez pelo desígnio de Deus, que os Capuchinhos vieram se instalar.
Frei Henrique de Ascolli Piceno (Frei Enrico Montironi), Frei Graciano Mosca (Frei Graciano de Santo Elpídio) e Frei Benjamim Capelli (Frei Benjamim Villagrande) chegaram a esta cidade em 1950 para cumprir a missão designada pelo custódio Frei Germano Citeroni (Frei Germano de Colli del Tronto) de dar início à evangelização. Relata Frei Monteiro que os precursores da Ordem chegaram a esta cidade em um “pau de arara” (como eram chamados os caminhões que transportavam passageiros e cargas).
Os frades viajaram no veículo do comerciante paraibano José Campos e se alojaram na casa de número 2013, vizinha à dele, localizada na Avenida Getúlio Vargas, esquina com a Rua Juracy Magalhães. Católico fervoroso, José Campos apresentou os capuchinhos a seu amigo Fraterno Eliziário. Gentilmente convidados, eles rejeitaram a hospedagem oferecida por Fraterno, para não incomodar a sua família. Todavia, aceitaram a garagem, na atual Rua Brigadeiro Eduardo Gomes, transformada em capela, onde foram iniciados os trabalhos religiosos.
O labor dos frades italianos foi persistente. Além das celebrações na improvisada capela (a garagem), eles também evangelizavam em residências de famílias católicas, com isso ampliando e fixando a presença da Ordem na comunidade. Em 8 de agosto de 1950, conforme documento, o Convento de Nossa Senhora da Piedade, em Salvador, através do seu superior, frei Germano de Colli, adquiriu por $20.000,00, de Fraterno Eliziário de Oliveira, a área destinada à construção do convento, seminário e igreja. A escritura foi lavrada pelo tabelião Sílio Soledade, tendo como testemunhas documentais Valdemar Lustosa e Álvaro da Silva Lima Júnior.
Em 28 de outubro de 1951, foi colocada a pedra fundamental do Convento de Santo Antônio, destinado a substituir o congênere existente em Esplanada. Nesse período, foi importante o apoio da senhora Francisca Carolina da Costa, mãe da professora Maria Antônia, mãe de criação do ex-prefeito José Falcão da Silva. Proprietária de uma pensão, dona Francisca fornecia alimentação aos frades gratuitamente. Foram muitas as contribuições espontâneas de pessoas da comunidade: leilões, venda de doces, exibição de filmes, corridas de bicicletas, sorteios, quermesses, diversas campanhas, inúmeras iniciativas para a obtenção de recursos para as obras.
O engenheiro José Marchesini foi o autor do projeto do Seminário, com dois edifícios, com 102 portas, 115 janelas, 150 torneiras e 108 lâmpadas. Foram gastos 40 toneladas de ferro, 9.288 latas de cal, 3.731 sacos de cimento, 640 metros cúbicos de pedra, 549.951 tijolos, 1.200 quilos de pregos e seis quilômetros de fio elétrico. A maior parte do ferro veio da fábrica Belgo Mineira, de Belo Horizonte, desembarcando na Estação Ferroviária, que ficava nas imediações do atual Feiraguai. O custo da obra, em cruzeiros, totalizou $3.294.477,50. A inauguração do Seminário, que teve como primeiro diretor Frei Virgínio, ocorreu no dia 4 de março de 1956, com a presença de D. Augusto da Silva, Arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil.
A construção da Igreja de Santo Antônio foi iniciada em 17 de fevereiro de 1957 e concluída em 13 de junho de 1961, a partir de uma maquete produzida por Geraldo Marchesini, irmão do engenheiro João Marchesini. Com a igreja ainda inacabada, a primeira missa foi celebrada em 14 de junho de 1959 e, em 13 de junho de 1961, foi realizada a primeira Festa de Santo Antônio. Um dos capítulos mais significativos dessa história foi a formação da Congregação Mariana, idealizada pelo frei Félix de Pacatuba, que reunia jovens, encaminhando-os para sólida formação cristã.
Em 1958, os capuchinhos implantaram o Centro de Assistência Social Santo Antônio (ECASSA). Em 1963, o Seminário foi transformado em colégio público. Em 1969, foi instalado o segundo grau. Na área da comunicação, a Rádio Sociedade, com notável liderança do frei Aureliano de Grottamare e demais dirigentes da Ordem que sequenciaram o seu projeto, assim como a Princesa, emissoras de frequência modulada, cumprem importante papel noticiando, evangelizando e promovendo entretenimento, tudo isso iniciado em 1960 pela Sociedade, com frei Hermenegildo de Castorano. Assim, a Ordem dos Frades Capuchinhos vem participando, de forma efetiva, há 76 anos, do processo desenvolvimentista de Feira de Santana.
Por Zadir Marques Porto
Fotos: ACM e Arquivo ZMP


















