Autor de personagens icônicos deixa legado literário de mais de 70 obras
O escritor e cronista Luis Fernando Verissimo morreu neste sábado (30), aos 88 anos, em Porto Alegre. Ele estava internado havia cerca de três semanas na UTI do Hospital Moinhos de Vento com princípio de pneumonia. A morte foi confirmada pela família ao portal G1.
Verissimo enfrentava problemas de saúde nos últimos anos. Diagnosticado com Parkinson, teve complicações cardíacas que o levaram a implantar um marcapasso em 2016. Em 2021, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e passou a conviver com dificuldades motoras e de comunicação.
Ele deixa a esposa, Lúcia Helena Massa, três filhos e dois netos. Ainda não há informações sobre velório e sepultamento.
Foi com o pai que Luis Fernando dizia ter herdado o estilo: “O pai foi um dos primeiros escritores brasileiros a escrever de uma maneira mais informal. E eu acho que herdei um pouco isso”. Nascido em Porto Alegre em 1936, passou parte da infância nos Estados Unidos, quando Erico dava aulas de literatura brasileira em universidades da Califórnia. Nos anos em que viveu em Washington, estudou saxofone e descobriu o jazz, que se tornaria uma de suas paixões. “Música é sentar e ouvir”, resumiu em entrevista de 2012.
A literatura, porém, foi o caminho que consolidou sua carreira. Começou em 1966 como revisor do jornal Zero Hora, trabalhou como tradutor no Rio de Janeiro e estreou na literatura em 1973 com O Popular. Publicou mais de 70 livros e alcançou 5,6 milhões de exemplares vendidos, entre romances, contos, crônicas e quadrinhos. Criou personagens como Ed Mort, O analista de Bagé e A velhinha de Taubaté, além da tira As Cobras. Parte de sua obra inspirou a série Comédias da Vida Privada, exibida pela Globo nos anos 1990.
Mesmo considerado um mestre do humor, costumava minimizar o talento: “Não tenho uma vocação humorística, mas consigo eventualmente produzir humor. Mas é uma coisa mais deliberada, mais pensada, do que espontânea, no meu caso”, disse em entrevista ao lançar a série. Também foi roteirista do programa TV Pirata, no fim dos anos 1980, e assinava colunas em jornais como O Estado de S. Paulo, O Globo e Zero Hora.
Reservado fora das páginas, confessava desconforto em entrevistas: “Tenho horror de fazer isso que estou fazendo agora: dar entrevista, falar em público e tal”. Mas na escrita não economizava: “Essa é uma das vantagens da crônica. A gente pode ser o que quiser escrevendo uma crônica”. Quando completou 80 anos, brincou sobre as homenagens: “Têm sido tão agradáveis que eu tô pensando em fazer 80 anos mais vezes”.
Outro traço forte de sua personalidade era a devoção ao Internacional. Cobriu Copas do Mundo a partir de 1986, mas o coração sempre esteve no Beira-Rio. Recordava com emoção o primeiro Gre-Nal que viu no Estádio dos Eucaliptos: “Dava para ver as feições, sentir a respiração deles. Eu estava vendo as cores do jogo, uma sensação completamente diferente”. Sobre o Mundial de 2006, eternizou em crônica o gol de Adriano Gabiru: “Vejo como o triunfo do Gabiru, o grande herói que era criticado. Algo meio melodramático. Foi um momento de sonho”.
Entre jazz, futebol e humor, Verissimo construiu uma obra que fez rir gerações de leitores sem precisar de muitas palavras fora do papel. “Não sou eu que falo pouco, os outros é que falam muito”, dizia, em uma de suas respostas secas que acabavam arrancando risadas.
Fonte:www.correio24horas.com.br